
No terceiro dia em que dormia no pequeno apartamento de um edifício recém- construído, ouviu os primeiros ruídos. De normal, tinha sono pesado e mesmo depois de despertar levava tempo para se integrar no novo dia, confundindo restos de sonho com fragmentos da realidade. Por isso não deu de imediato, importância à vibração de vidros, atribuindo-a a um pesadelo. A escuridão do aposento contribuía para fortalecer essa frágil certeza.
O barulho era intenso. Vinha dos pavimentos superiores e assemelhava-se aos produzidos pelas raspadeiras de assoalho. Acendeu a luz e consultou o relógio: três horas. Achou estranho. As normas do condomínio não permitiam trabalho dessa natureza em plena madrugada. Mas a máquina prosseguia na impiedosa tarefa, os sons se avolumando, e crescendo a irritação de Gérion contra a companhia imobiliária que lhe garantira ser excelente a administração do prédio. De repente emudeceram os ruídos.
_ Ótimo! Agora vou poder dormir.
E dormiu
No dia seguinte foi ao encontro dos visinhos para perguntar se ouviram o barulho na noite anterior e, para seu espanto, nenhum deles havia ouvido.
“Deve ter sido só um sonho mesmo” _ pensou.
À noite, o barulho recomeçou, mas desta vez com mais intensidade. Parecia que alguém ou alguma coisa estava querendo cavar um túnel até seu apartamento. Gérion olhou para o relógio e, mais uma vez, eram três horas.
Mais uma vez falou com os visinhos, que nada ouviram. Foi queixar-se com a administração do prédio, esta lhe informou que não havia ninguém morando lá e que nenhum outro morador havia reclamado.
O barulho continuou por mais algumas semanas até que não aguentou e foi averiguar por si só.
Chegou ao apartamento que lhe dava insônias cedo, decidido a permanecer durante toda a noite. O cômodo era basicamente como o seu, uma mesinha no centro da pequena sala, e dois quartos. Ele se abrigou no quarto que se encontrava exatamente em cima de onde dormia. Levou consigo comida, água, binóculos de infravermelho e uma câmera para documentar o que quer que acontecesse.
A noite passava rápido e nada acontecia. Já eram quase três da manhã quando o ambiente começou a ficar mais frio. Uma névoa se formava entorno de si.
Pontualmente às três horas, começou. O barulho parecia maior estando ali. Gérion estava assustado, algo realmente estranho estava acontecendo e ele não sabia o que era.
Queria sair dali, mas seu corpo estava paralisado. Não tinha controle de seus movimentos. Um arrepio subiu por sua espinha deixando-o ainda mais assustado. Queria sair, mas não podia.
De repente algo aconteceu. O barulho aquietou-se, porém, no meio da névoa, alguma coisa vinha em sua direção. Algo realmente fora dos padrões.
Ouviu-se um grito de pavor na noite. Os moradores se assustaram. Pela manhã, não havia sinal de Gérion, nem mesmo de sua câmera.











