terça-feira, 27 de abril de 2010

Conto por Luanna Andrade


No terceiro dia em que dormia no pequeno apartamento de um edifício recém-construído, ouviu os primeiros ruídos. De normal, tinha o sono pesado e mesmo depois de despertar levava tempo para se integrar no novo dia, confundindo restos de sonho com fragmentos da realidade. Por isso não deu de imediato importância à vibração de vidros, atribuindo-a a um pesadelo. A escuridão do aposento contribuía para fortalecer essa frágil certeza. O barulho era intenso. Vinha dos pavimentos superiores e assemelhava-se aos produzidos pelas raspadeiras de assoalho. Acendeu a luz e consultou o relógio: três horas. Achou estranho. As normas do condomínio não permitiam trabalho dessa natureza em plena madrugada. Mas a máquina prosseguia na impiedosa tarefa, os sons se avolumando, e crescendo a irritação de Gérion contra a companhia imobiliária que lhe garantira ser excelente a administração do prédio. De repente emudeceram os ruídos.

Gérion ficou intrigado e tendo perdido o sono, foi até a cozinha beber um copo d'água. Ao chegar lá, viu uma rachadura no piso que vinha da área de serviço. Ficou logo furioso, pois pensou que a tal obra estava afetando seu apartamento. Mas, quando chegou mais perto para observar, viu minúsculas luzes pelo buraco e ouvia vozes que mais pareciam chiados, de tão baixas e agudas que eram. Ele desconfiou que fossem os operários ou algo assim, mas ao se aproximar mais um pouco, viu gnomos. Sim, aqueles que vemos em desenhos, nos jardins... Eles estavam embaixo do chão da cozinha de Gérion. Ele estava estarrecido vendo aqueles seres carregando pequenos carrinhos carrinhos cheios de pepitas, esbravejando uns com os outros.
Aparentemente, o prédio havia sido construído sobre uma mina de ouro e aqueles gnomos estavam trabalhando intensamente para salvar as pedrinhas. Gérion não podia acreditar no que seus olhos viam, tentou chamá-los, mas eles falavam um idioma diferente, algo que ele nunca havia escutado. Até pensou em pegar um pouco desse ouro para ele, mas achou que estava mesmo era com muito sono, só podia estar imaginando isso tudo. Bebeu mais um copo d'água e voltou para a cama, esperando um sonho menos maluco dessa vez.

Nenhum comentário:

Postar um comentário