quarta-feira, 28 de abril de 2010

O barulho por Nathália Rangel


No terceiro dia em que dormia no pequeno apartamento de um edifício recém-construído, ouviu os primeiros ruídos. De normal, tinha o sono pesado e mesmo depois de despertar levava tempo para se integrar no novo dia, confundindo restos de sonho com fragmentos da realidade. Por isso não deu de imediato importância à vibração de vidros, atribuindo-a a um pesadelo. A escuridão do aposento contribuía para fortalecer essa frágil certeza. O barulho era intenso. Vinha dos pavimentos superiores e assemelhava-se aos produzidos pelas raspadeiras de assoalho. Acendeu a luz e consultou o relógio: três horas.
Depois que o barulho parou, ele decidiu voltar a dormir. Mas, segundos depois, ele recomeçou. Irritado, Gérion decidiu que ia procurar de onde vinham esses ruídos estranhos. Colocou um roupão por cima do pijama e andou depressa em direção a saída do apartamento enquanto o barulho ficava cada vez mais alto.
Ele abriu a porta, mas ao ver tudo escuro, fechou-a e pensou novamente no que ia fazer. Decidiu telefonar para a portaria do prédio, mas ninguém o atendeu. Queria conhecer algum vizinho para quem pudesse ligar, mas havia acabado de se mudar e só tinha visto algumas pessoas de longe.
Criou coragem, abriu a porta e andou no escuro em direção às escadas do prédio. Sentiu um vento no seu cabelo enquanto procurava o caminho, mas decidiu que era melhor não procurar por janelas abertas, pois ele sabia que poderia não encontrá-las e isso, provavelmente, o faria mudar de prédio no dia seguinte. Ele esperou que tivesse alguém no andar de cima procurando a origem do barulho, mas não havia ninguém. Então decidiu que as pessoas tinham um sono mais pesado que o dele.
Os ruídos aumentavam enquanto ele se aproximava de uma porta antiga de madeira. Pensou em voltar para casa e esperar amanhecer, mas decidiu seguir em frente. Encostou o ouvido na porta, na esperança de ouvir melhor, mas o barulho parou. Algo se movimentou dentro do apartamento. Parecia alguma coisa correndo em direção à porta e ele se afastou num pulo.
Procurou um interruptor que pudesse clarear aquele local, pois a única iluminação eram as luzes da rua que vinham através da janela fechada. Achou o que procurava, mas viu que as luzes estavam queimadas e concluiu que aquele, definitivamente, não era o seu dia de sorte. Olhou novamente no relógio, já eram quatro da manhã.
Ele já estava voltando para seu apartamento quando ouviu arranhões na porta. Aquele som o deixou mais assustado, mas achou que poderia ser alguém querendo sair de lá e, finalmente, bateu na porta do vizinho que, minutos depois, abriu-a e deixou Gérion impressionado, pois ele não esperava se deparar com uma pessoa daquela.
Mesmo com cara de sono, a mulher que abriu a porta era muito bonita. Também estava coberta com um roupão, era morena e alta. Gérion perguntou se ela sabia o que estava acontecendo no apartamento ao lado, mas a mulher, muito educada, informou que um senhor havia saído de lá há dois dias e fora morar em outra cidade. Depois de também ouvir os ruídos, ela achou que seria melhor verificarem o que estava acontecendo ali.
Os dois foram juntos até a portaria, pegaram uma chave reserva e, quando abriram a porta do apartamento, um pequeno cachorro, que parecia cansado e faminto, veio andando na direção deles. Ficaram satisfeitos por terem encontrado o animal vivo, mas com raiva do senhor que o deixou naquele local sozinho. Eles decidiram que iam ficar com o cachorro, que moraria uma semana na casa do homem e outra na casa da mulher. Foi assim por uns dois anos, até que eles decidiram morar juntos e, claro, levaram o cachorrinho.

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