
Ele estava junto à parede dos fundos de um supermercado. Virei à esquina e me deparei com ele. Fazia sol naquela manhã, pois muitos têm sido os dias de sol. Mas, como era ainda bem cedo, e a cidade mal despertava, o sol esbranquiçado e preguiçoso lançava sobre a calçada uma luz tímida, oblíqua. Seus raios, depois de esgueirar-se por entre os prédios ainda envoltos pelas últimas sombras, incidiam sobre o chão apenas num determinado ponto. E o facho de luz reticulado pelos grãos de poeira em suspensão derramava-se sobre as pedras portuguesas com um toque quase sobrenatural, como um raio de anunciação.
Pois era bem ali – no trecho da calçada banhado por aquele sol primeiro – que ele, o anjo, encontrava-se. Olhando diretamente nos meus olhos, ele sorriu. Eu me aproximei.
- Pensei que você não viesse mais. Para que toda essa demora, afinal, Valentina? – perguntou o anjo, ainda sorrindo.
- Eu não consegui pegar um táxi, tive que vir andando... Como é que você sabe meu nome?
- Mas isso não é óbvio? Eu estou aqui lhe esperando desde ontem à noite, Valentina. Por que você me deixou esperando?
- Eu não... Por que você estava me esperando? Quem é você? – perguntei, com uma sensação de que tudo aquilo não passava de uma grande piada.
- Fui eu quem te levei até sua casa para você se despedir, ontem à noite. Você não se lembra?
- Mas ontem à noite... – foi aí que eu me lembrei o que aconteceu ontem à noite. – Ah, meu Deus! Quer dizer que aquele acidente foi real? Não foi só um sonho? Ai, não. Ah, meu Deus, eu morri. Eu estou morta!
- Calma, Valentina. Eu pensei que você tivesse entendido tudo ontem á noite. Eu lhe expliquei tudo, não lembra? – perguntou o anjo. Eu estava meio em estado de choque pela descoberta da minha própria morte. Não pude responder.
- Mas... Mas... Se eu estou morta, como é que eu... Por que eu não estou no céu? Por que você não está no céu? E se alguém nos vir aqui? Quer dizer, eu deveria estar morta!
- Valentina, você não pode partir. – ele disse, olhando-me seriamente.
- o que? Quer dizer que eu vou ficar aqui? Para sempre? Não. Eu não quero ficar aqui!
- Você ainda está presa ao seu corpo. Ele diz que você está em coma. Não quer acreditar. – Ele segurou minhas mãos para me tranqüilizar. Então era isso. Eu não podia partir. Meu coração ainda estava ligado ao dele.
- E o que eu faço? O que eu faço para poder partir? – perguntei, à beira de uma crise de choro. Parece que nem morta eu ia deixar de ser chorona.
- Você tem que esperar, Valentina. Você tem que se despedir. Fez isso ontem à noite, como eu lhe expliquei?
- Eu não sei... Não me lembro! Pelo visto não funcionou, já que eu ainda estou aqui!
Exatamente nessa hora, um carro parou atrás de nós. Eu me virei e vi Felipe descendo do carro. Ele parecia muito abatido. E olhava as marcas de pneus no asfalto, resultados do acidente.
- Ah, Felipe! Não sofra! – virei-me para o anjo, começando a chorar. – Por favor, diga a ele que eu estou bem, que vai dar tudo certo. Por favor, não o deixe sofrer!
Uma única lágrima caiu do rosto do anjo parado à minha frente. E então ele sorriu. Eu me virei para Felipe e vi que ele também estava sorrindo, embora fracamente. Eu também sorri. E soube que ele ficaria bem.
De repente, senti como se o vento estivesse passando por dentro de mim. Assustada, agarrei a mão do anjo e vi que ele estava desaparecendo, como se estivesse desbotando. Olhando para baixo, vi que o mesmo acontecia comigo. Então uma forte luz me invadiu.
E eu estava flutuando, subindo por entre as nuvens de mãos dadas com um anjo.
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